
O líder do Comité Cívico de Santa Cruz, Rómulo Calvo, anunciou este sábado o levantamento da greve de 36 dias indefinidos que tinha paralisado a região após a aprovação, no início desta manhã, do projecto de lei do Censo na Câmara dos Deputados.
Calvo atribuiu a aprovação a «um triunfo do povo» e insistiu que se trabalhasse na «nova relação de Santa Cruz com o Estado» após mais de um mês de paragens e protestos violentos que resultaram em pelo menos quatro mortos e 178 feridos.
Contudo, advertiu que o comité «permanecerá em vigilância permanente de todas as determinações, esforços e acções do governo nacional até Setembro de 2024 e às eleições de 2025», de acordo com o portal digital Erbol.
«Os números do Censo mostrarão que a suposta prioridade dada às zonas rurais e indígenas foi uma mentira: que as pessoas se mudaram para as grandes cidades e que os departamentos fora do eixo estão a desvanecer-se. O seu modelo económico falhou», disse Calvo em declarações relatadas pela Unitel.
Apesar da aprovação preliminar da lei do Censo, Calvo pediu ao departamento local de Cruz para «imediatamente» organizar outro recenseamento para o próximo ano, cujos resultados podem ser «tecnicamente contrastados com os do Censo Nacional».
Os protestos em Santa Cruz – um reduto tradicional da oposição aos governos do Movimiento al Socialismo (MAS) – foram chamados pela decisão do presidente, Luis Arce, a adiar o recenseamento da população, que se realizará finalmente a 23 de Março de 2024.
A Câmara dos Deputados da Bolívia (Câmara Baixa) deu luz verde à lei do recenseamento no sábado após uma sessão de maratona que durou sete horas e terminou por volta das 2 horas da manhã, hora local.
Dos 119 deputados presentes no hemiciclo, 91 votaram a favor, 25 contra e três em branco. A proposta obteve assim o apoio de mais de dois terços da câmara e será agora enviada ao Senado.
A lei do censo tem sido acompanhada de controvérsia e confrontos em Santa Cruz, a principal região económica do país e onde a oposição se tem tornado forte nas últimas semanas com estes protestos.
O Presidente boliviano Luis Arce tinha fixado Março de 2024 como a data para o recenseamento da população, enquanto os opositores tomaram as ruas para exigir que o processo fosse levado a cabo um ano antes, em 2023, de acordo com o «El Deber».
A lei boliviana estipula que o recenseamento da população deve ser realizado de dez em dez anos, embora o último tenha tido lugar em 2022. A contagem da população poderia levar a um aumento dos recursos económicos, bem como a um reajustamento da representação no parlamento.
A oposição acusou Arce de tentar atrasar a atribuição da ajuda, enquanto o presidente tem feito sucessivos apelos à calma e apelado ao fim de uma greve em Santa Cruz que se arrasta há mais de um mês.
No entanto, o governador da cidade boliviana de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, explicou na quarta-feira que, como o Censo não pode ser organizado em 2023 por falta de tempo, a data de execução não é «decisiva», abandonando assim a sua posição inicial que instava o governo boliviano a realizar o inquérito nacional no próximo ano.
Camacho, que é o principal protagonista do conflito, considerou em várias ocasiões que a realização do Censo em 2023 foi «inabalável», mas a nova postura do governador muda a situação de conflito e anuncia um novo cenário.
A Missão Técnica na Bolívia do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACDH) condenou a violência dos protestos e apelou a uma investigação sobre qualquer violação dos direitos.






